do forno_ Otto // Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos

A metamorfose de Otto em um dos melhores discos de 2009

Otto demorou seis anos para lançar seu quarto disco solo, mas bastam seis minutos para ele resumir tudo. “Nasceram flores num canto de um quarto escuro / Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. Assim ele conta a trajetória que o trouxe até aqui, na faixa “6 Minutos”, uma das flores que brotam de Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos. Mas como diz, foi preciso atravessar um longo inverno, onde Otto encontrou não apenas sonhos intranqüilos, como também pesadelos reais e aparentemente dolorosos, dentre os quais se sabe o fim de um longo relacionamento e a desilusão em relação à indústria e às gravadoras.

“Não quero nem ouvir proposta de gravadora. Negociar com eles me constrange, derruba a auto-estima. Só falam de números e logo você começa a sentir culpa pelo que está fazendo. Não quero passar por isso. Trabalho melhor sem culpa”, disse o cantor pernambucano, em entrevista a Rolling Stone Brasil, em 2007, quando ainda concluía o disco. Otto optou, então, por reunir os amigos e fazer o negócio na independência. Fernando Catatau (Cidadão Instigado) na guitarra, Dengue (Nação Zumbi) no baixo, Pupillo (Nação Zumbi) na bateria e na produção, e outros convidados como Céu, Lirinha e Julieta Venegas, ajudaram Otto a conceber um dos grandes discos nacionais do ano e da década que se passaram. Ao longo de dez faixas, escutamos Otto expurgar seus fantasmas, confidenciando sentimentos contraditórios, por vezes de rancor, por vezes afetuosos. “Aqui é festa, amor / E há tristeza em minha vida”, declara o cantor na faixa “Filha”. Um desabafo, como algo que precisava existir, para Otto e para as pessoas a quem ele se dirige.

Na música, uma das principais características são os arranjos da guitarra psicodélica de Catatau, que em certos pontos fazem lembrar bastante o som do Cidadão. Otto também deixou um pouco de lado sua veia mais experimental e os elementos eletrônicos, que eram uma constante em seus outros trabalhos. Apesar dos temas densos, é visivelmente mais fácil e menos nebuloso percorrer este disco do que os três anteriores. Como na novela kafkiana que inspira o nome do álbum, Otto acordou transformado, não em um inseto gigante, mas em um artista mais objetivo e coeso. E alcançou esse estágio sem tropeçar no senso comum e sem perder os traços que o marcam como um artista moderno e de estilo próprio, seja através de seu cantar de sotaque carregado, seja através da linguagem simples e inteligente de sua poesia.

E pelo que parece, Otto também acordou com inspiração de sobra e estes seis anos de retraimento não irão se repetir. O pernambucano anunciou que Certa Manhã… abre uma trilogia. A segunda parte virá com o disco The Moon 1111, a ser lançado em 2011, com produção de Pupillo e do grande Naná Vasconcelos. Ou seja, esta metamorfose está apenas começando. E promete um final feliz.

artista: Otto
álbum: Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranqüilos
lançamento: setembro de 2009

Nota: 8,0

show_ Eric Clapton e Jeff Beck (Montreal – 26/02/10)

Eric Clapton e Jeff Beck dispensam artifícios em show conjunto

A miniturnê histórica de Jeff Beck e Eric Clapton teve seu último show em Montreal e terminou com um dos poucos duelos de guitarra da noite, em “Crossroads”. Acabou? Pois é, a sensação é de que Clapton mal começou. E, no entanto, três horas se passaram. Beck foi quem brilhou, mas Clapton esteve sempre lá com toda sua sabedoria e técnica. Voltemos ao início.

Bem, no começo de tudo, Clapton tocava em uma banda chamada Yardbirds. Ele queria um blues puro, mas o grupo estava em outra. Ele saiu, e Beck assumiu o seu lugar. Essa banda acabaria se tornando o Led Zeppelin. Mas essa é outra história (que você pode conferir aqui). De lá para cá, os dois guitarristas se encontraram algumas vezes no mesmo palco, mas esta é primeira colaboração efetiva entre os dois ex-Yardbirds.

E, dessa vez, foi Beck quem entrou primeiro. Sua banda veio sem a baixista Tal Wilkenfeld, australiana de caixinhos dourados que parece destruir no instrumento. A montrealense Rhonda Smith e o baterista Narada Walden, também substituindo, não só deram conta do trabalho, como garantiram um groove incrível ao melhor jazz-rock de Jeff Beck. Completando sua formação, e tornando realmente grandioso o seu show, Beck trouxe uma orquestra para levar ao extremo seu fraseado carregado de expressão, que faz a guitarra substituir a voz humana. E aí ele mostrou um pouco do que vem em seu próximo cd, Emotion & Commotion, como “Corpus Christi Carol” de Jeff Buckley e “Nessun Dorma”, uma ária de Puccini. O melhor momento dessa primeira parte da noite, no entanto, ficou mesmo por conta do rock, com um cover de” A Day in the Life”, dos Beatles, que rendeu a Beck esse ano seu terceiro Grammy.

Quando ele e toda sua estrutura saem do palco, vem Clapton…de banquinho e violão. Esse não foi o mesmo Clapton que entrou no nosso Morumbi em 2001. Nada de “Tears in Heaven” ou “Wonderful Tonight”. Nos poucos hits que tocou, o guitarrista não mostrou grande entusiasmo, com exceção de “I Shot the Sheriff”, em que Clapton nos deu um dos melhores solos da noite. “Layla” veio acústica, e “Cocaine”, ja com a guitarra, pareceu uma mera convenção. Clapton, como lá no começo, insistiu no blues e nesse, preciso, econômico e introspectivo, ele arrasa. Ao contrário de Beck, que entra no palco com o visual e a energia de um garoto, Clapton prefere assumir a idade e tirar bom proveito dela explorando cada vez mais sua voz grave e rouca.

Sem nenhuma cerimônia (aliás, nenhuma palavra foi dita durante toda a noite), Jeff Beck volta ao palco e se junta a Clapton. Se alguém esperava faíscas ou fogos de artifício desse encontro, saiu de lá de mãos vazias. Foram poucos o duelos de guitarra. Na maior parte do tempo Clapton deixou espaço para Beck, que, mesmo mantendo seu estilo, acabou se encontrando no blues, em músicas como “Outside Women Blues” e “You Need Love”. Constrastanto com o repertório, uma versão de “Moon River”, em que os dois músicos encontraram a medida certa para não cair no brega. Com mais uma guitarra no palco, Clapton pareceu mais motivado e foi quem, discretamente, dirigiu essa última parte da noite.

Em entrevista à Rolling Stone, referindo-se a este minu-turnê, Clapton se explicou: “I need it”. Pois é, a idéia aqui não pareceu ser fazer um espetáculo disso tudo. Mas um encontro amigável, com elegância inglesa, entre dois guitarristas com idéias bastante constrastantes, mas que conseguem uma boa harmonia entre suas técnicas impecáveis.

Confiram no nosso canal no YouTube vídeos de Jeff Beck tocando A Day in the Life,  Eric Clapton em I Shot the Sheriff e os dois guitarristas em Crossroads e You Need Love .

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show_ Clare & the Reasons + Nouvelle Vague (Montreal – 26/01/10)

A revelação do Brooklyn e a reinventores da New Wave

A revelação do Brooklyn e os reinventores da New Wave

Concluindo meu breve diário de viagem…

Uns dias após o show do Dinosaur Jr., fui ao L’Astral conferir a apresentação do coletivo francês Nouvelle Vague e seus covers dos clássicos da New Wave.

O show de abertura ficou por conta da banda Clare & the Reasons, uma das muitas revelações que o Brooklyn nos apresentou nesta última década. Um som simples, mas que encontra seu charme na variedade de instrumentos e timbres que compõem cada música – desde a delicadeza do kazoo e do glockenspiel (uma espécie de vibrafone), até os sons graves da tuba e da trompa. Chega a lembrar um pouco o baroque pop dos Beach Boys. Não à toa, Van Dyke Parks, parceiro de Brian Wilson, é um dos convidados especiais do primeiro disco da banda, que também conta com colaboração de Sufjan Stevens. O fantástico cover de “That’s All”, do Genesis, encerrou o show em grande estilo, já preparando o público para a invasão oitentista que viria a seguir.

Depeche Mode, Police, Talking Heads, Violent Femmes, Joy Division, e diversas outras bandas passaram pelo palco do L’Astral nas interpretações divertidas e envolventes do Nouvelle Vague. Um excelente time de músicos, comandado por Marc Collin e Olivier Libaux, garante os arranjos originais que tornam válida uma apresentação sem composições próprias. Os ritmos agora vão além da bossa que caracterizava o primeiro disco da banda, abrindo espaço para versões mais pop e dançantes. Destaques para “Road To Nowhere” (Talking Heads) e “Blister in the Sun” (Violent Femmes). E para completar, as duas vocalistas escaladas para esta turnê, a belga Helena Noguerra e a paulista Karina Zeviani, também fizeram um ótimo trabalho, extremamente carismáticas e expressivas. Nascida em Jaboticabal, Karina colabora com o NV desde 2005 e é uma das duas brasileiras que integram o quadro de vocalistas do coletivo, junto com a carioca Eloisia. Karina ainda carrega no currículo duetos com Caetano Veloso, uma carreira solo internacional, turnês com o duo eletrônico Thievery Corporation e um convite para assumir o vocal d’Os Mutantes, após a saída de Zélia Duncan – o qual teve de ser recusado devido à agenda abarrotada. Nada mal, hein.

Confiram os vídeos das músicas “You Getting Me”, de Clare & the Reasons, e “Ever Fallen In Love”, do Nouvelle Vague, no nosso canal no YouTube.

Abaixo, alguma fotos que tirei das duas apresentações:

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show_ Dinosaur Jr. (Montreal – 23/01/10)

Mascis, Barlow e Murph: mais vivos do que nunca

Enfim, o Untuned coloca os pés em 2010. Primeiramente, pedimos desculpas pela falta de atualizações nos últimos tempos. Mas agora estamos de volta e temos muita coisa bacana para postar aqui.

Durante este pequeno recesso do blog, eu aproveitei para ir visitar a Thaís, nossa outra articulista, que está passando um tempo em Montreal, no Canadá. E, em uma viagem à cidade-natal de nomes como Leonard Cohen e Arcade Fire, boa música é que não poderia faltar.

O Dinosaur Jr. foi uma das bandas que tive a sorte de pegar por lá. Para quem não está ligado, este trio de Amherst, Massachusetts, é um dos pilares da cena alternativa que brotou nos EUA nos anos 80. Uma cena formada ainda por bandas como Pixies, Replacements, R.E.M. e Yo La Tengo, e que não apenas fez o som daquela década soar mais agradável, como também guiou todos os passos que seriam dados dali em diante pelo chamado “indie” rock.

E digo que tive sorte não só por poder vê-los ao vivo, mas também por poder vê-los em um grande momento de sua carreira. Após se reunirem em 2005, voltando a tocar juntos após 16 anos, o trio fundador – J Mascis, Lou Barlow e Murph – já lançou dois novos discos de estúdio, o aclamado Beyond (2007) e Farm (2009), a melhor obra destes dinossauros desde Green Mind (1991).

Mas antes da banda inteira adentrar o palco do simpático Club Soda, tivemos a apresentação do ótimo projeto solo de Lou Barlow. No extremo oposto de suas atuações raivosas como baixista do Dinosaur Jr., o show de Barlow traz um folk reconfortante, no esquema banquinho, violão (às vezes, um ukelele) e uma belíssima voz. Ele apresentou canções de seus dois discos – Emoh (2005) e Goodnight Unknown (2009) -, bastante aplaudidas pelo público. Em seguida, ainda tivemos outro show de abertura com o MV & EE, banda de Vermont, que faz um som experimental psicodélico, com muitas distorções e solos gigantescos. A apresentação se parece mais com uma grande jam session e, apesar de cansativa em certos momentos, a banda mostrou-se competente, primando sobretudo pela boa técnica e ousadia dos músicos. Contaram ainda com a participação especial de J Mascis, tocando bateria em duas músicas.

Agora sim, era hora dos três subirem juntos ao palco. Barlow, Mascis e… ué, aquele não é o Murph. É, o baterista, ao que parece, não conseguiu entrar no Canadá e teve de ser substituído por Kyle Spence, batera da banda Harvey Milk. E, no final das contas, Kyle acabou fazendo um ótimo trabalho, garantindo toda a energia característica das músicas do Dinosaur Jr. Ótimo trabalho também compartilhado por seus companheiros. O show teve praticamente tudo que qualquer um poderia esperar. Os solos nonsense de Mascis; Barlow martelando seu baixo nervosamente; o bate-cabeça enlouquecido da platéia; e no setlist, grandes clássicos, como “The Lung” e “Kracked”, da magnum opus You’re Living All Over Me (1987), e a magnífica “The Wagon”, do álbum Green Mind (1991). Fizeram falta apenas algumas faixas mais do Farm, representado por apenas três músicas. “Ocean In The Way” e “See You” deixariam a coisa ainda mais bonita.

Mas o mais bacana de tudo é ver aqueles caras ali tocando com a empolgação e a sinceridade de garotos iniciantes, como se ainda tivessem alguma coisa a provar. Não têm. A não ser, talvez, o fato de que esta nova fase do grupo não é apenas um revival barato, motivado pela falta do que fazer, mas sim um reencontro de três amigos que gostam de fazer barulho juntos. Se a dúvida restava a alguém, nada melhor do que aqueles 90 minutos de show para tudo ficar muito bem resolvido.

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Setlist:

1 – Thumb
2 – The Lung
3 – Budge
4 – Imagination Blind
5 – Get Me
6 – Pieces
7 – Out There
8 – Over It
9 – Feel The Pain
10 – The Wagon
11 – Freak Scene
12 – Gargoyle
13 – Kracked
14 – Sludgefeast

conversa_ Sérgio Dias

Sérgio Dias fala ao Untuned sobre o Mutantes de hoje e de ontem

Para matar a saudade do Brasil, muito…rock and roll! Uma das principais atrações do Pop Montreal de 2009 foi a banda embrionária do rock brasileiro. Quer dizer, não exatamente a mesma. Os Mutantes não tem mais a rainha Rita Lee, nem o lóki Arnaldo Baptista. Sérgio Dias foi quem apagou a luz dos Mutantes em 1978, já sem os integrantes originais, e é ele quem lidera o grupo hoje, que está em turnê para divulgar o primeiro cd de inéditas em 35 anos. “O único jeito que eu vejo de uma banda voltar é com um trabalho novo”, ele conta em entrevista ao Untuned.

“A gente só retomou de onde paramos”, explica. E a nova formação continua a fascinar os gringos, que acompanharam o show alucinados pela mistura tropicalista e a descontração que estava no palco. Já o Brasil demorou para mostrar interesse pela façanha de Sérgio Dias. O cd, lançado em setembro nos EUA, apenas agora começa a ser negociado para lançamento aqui, onde sairá em uma versão diferente.

Falei com Sérgio Dias logo após a temporada de show na América do Norte. Ele nos contou como está sendo a turnê com banda, falou sobre a parceria com o Tom Zé e como foi a reunião em 2006 com o Arnaldo Baptista e a Zélia Duncan. Agora em janeiro a banda faz uma rápida passagem pelo Brasil (tocam no dia 2 no Festival Psicodalia, em Santa Catarina) e depois partem para a turnê européia. “A bola de neve já está rolando, agora ele só tende a crescer”.

A gente fez questão absoluta de fazer exatamente como a gente fazia, que é basicamente sentar e compor o que você realmente sente, sem nenhuma influência externa, sem nenhuma concessão.

A gente nunca teve medo, e nunca vamos ter. Se as pessoas vão nos comparar, vão acreditar ou não acreditar, isso a própria música vai fazer o serviço dela.

– LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA –

cinco_ Clipes geniais de Michel Gondry

Antes de levar sua mente brilhante para as películas hollywoodianas, o prestigiado diretor Michel Gondry se dedicou, por longos anos, à construção de um belo currículo no mundo dos videoclipes – assim como outros colegas seus, como Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich), David Fincher (Clube da Luta) e, mais recentemente, Marc Webb (500 Dias com Ela). Em companhia de outros artistas não menos geniais (como Björk, Stones, Beck e Radiohead), Gondry criou algumas pequenas obras-primas, munido de suas imagens coloridas e surrealistas. Separei, aqui, cinco destas obras, parte dos momentos mais inspirados do diretor francês. Aproveitem.

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Oui Oui – Junior et sa Voix D’Or (1988)
A relação do diretor francês com a música vai, na verdade, muito além dos videoclipes. Antes de ir para trás das câmeras, Gondry assumia as baquetas da banda francesa Oui Oui. Mas foram os próprios vídeos da banda que serviram de ponte para Gondry migrar para a direção. Este é seu primeiro trabalho como diretor.

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Björk – Hyperballad (1996)
Uma das parcerias freqüentes de Gondry, tendo já rendido sete vídeos. Parceria que, aliás, não tinha muito como dar errado. Afinal, ninguém melhor do Björk para embarcar nos experimentalismos do francês. O resultado aqui é um dos melhores já obtidos pelo diretor. E se você nunca prestou atenção na letra desta música, faça-o.

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Foo Fighters – Everlong (1997)
O estilo surrealista das imagens de Michel Gondry aqui se une ao humor escrachado típico dos clipes do Foo Fighters. Um clipe perfeito para uma música perfeita. Trivia: Vocês sabiam que “Everlong” é a música favorita de David Letterman e que até Bob Dylan já se encantou com estes versos de Dave Grohl?

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White Stripes – Fell In Love With a Girl (2002)
Com menos de dois minutos, milhares de peças de Lego e uma aula de stop-motion, Gondry construiu (literalmente) o melhor clipe da década segundo o site Pitchfork. É, sem dúvida, sua realização mais notável na área. Depois dessa, seguiram mais três contribuições com o White Stripes.

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Paul McCartney – Dance Tonight (2007)
Utilizando uma técnica de ilusionismo conhecida como Pepper’s Ghost, Gondry faz a casa do ex-Beatles ser invadida por uma trupe de espíritos. Uma das melhores composições recentes de Paul, aliás. Participações especiais da fantasminha Natalie Portman e do próprio Gondry. Tente encontrá-lo.

show_ Leonard Cohen (Nova Iorque – 23/10/09)

Andando por Montreal, uma panfleto com o nome de Leonard Cohen chamou a minha atenção. Um manifesto que exigia o cancelamento da apresentação que o cantor montrealense faria em Israel, evocando o boicote cultural à região que teria cometido crimes contra os direitos humanos. Se a imposição de um boicote é ela mesma um ataque a um dos principais direitos do homem, impedir Leonard Cohen de cantar faz ainda menos sentido.

O show, apesar da polêmica, aconteceu em setembro. A renda daquela apresentação foi para organizações que promovem a paz entre Israel e Palestina. Vi o show da mesma turnê algumas semanas depois, em Nova Iorque. É, Leonard Cohen não precisa de discursos para mostrar que quer a paz. Ele tem a música. E sua música tem poder.

Com uma voz única, voz que carrega toda sua experiência – o Chelsea Hotel e um monastério budista já foram casa para o poeta – nenhuma palavra parece ser gasta, mesmo quando diz coisas triviais. Leonard Cohen é um daqueles artistas que está acima de seu tempo, alguém que poderia tomar café-da-manhã com Bob Dylan. Alguém como Tom Waits, mas, no lugar da fascinante feiúra deste, um lirismo inesgotável.

E neste show, divulgando o álbum Live in London, Cohen vem acompanhado de uma banda que responde à beleza de sua poesia. O som ganha um ar etéreo com as três vozes femininas no canto do palco – entre elas, Sharon Robinson, co-autora de alguma composições como “Everybody knows” e “Boogie Street”, na qual ela assume a voz principal. “Who by the fire”, por sua vez, ganha uma introdução arrepiadora com o alaúde de Javier Mas, que confere um colorido espanhol ao show, algo meio expressionista.

O setlist, e mesmo as falas entre as música, é basicamente o mesmo do cd, fora alguns ótimos acréscimos, como “Chelsea Hotel #2”. São três horas de show, e os 75 anos não parecem pesar para o cantor – ele até dá uns pulinhos quando volta para o segundo bis. Aplaudido de pé inúmeras vezes durante a noite, Leonard Cohen torna o Madison Square Garden pequeno. E enche a casa não só de música, mas de uma magia inexplicável, transformadora. Bem, todo mundo deveria assistir a um show dele algum dia.