
Um manifesto da razão, do conhecimento humano, da tolerância e da antropofagia cultural. Isso é Afrociberdelia, segundo disco de Chico Science & Nação Zumbi, que veio em 1996 expandir as fronteiras do movimento mangue de Recife, dando o choque definitivo que salvaria a cidade do infarto iminente.
O alerta para o estado crítico fora dado dois anos antes, no release de Fred 04, do Mundo Livre S/A. Palavras que apontavam para a negligência generalizada em relação à capital pernambucana, mas que anunciavam o nascimento dessa cena local que propunha reestimular a vida, a arte e toda a fertilidade escondida na lama da Manguetown.
Da Lama Ao Caos, discos de estréia do CSNZ – junto com Samba Esquema Noise, do Mundo Livre – foi um importante marco do início dessa onda de frescor e criatividade que alagou Pernambuco em meados dos anos 1990 – e que continua dando frutos até os dias de hoje. Mas é em Afrociberdelia que está a grande obra-prima do CSNZ e também de toda a cena mangue. Todo o conceito e a sonoridade apresentados no primeiro trabalho do grupo aqui dão um passo à frente e tomam uma forma mais bem acabada.
Essa evolução se deve em grande parte ao trabalho de produção conjunto entre o músico paulistano Eduardo BiD e os próprios integrantes da banda. Um dos resultados mais notáveis desse processo é o aperfeiçoamento na captação dos instrumentos percussivos – uma das marcas do som da Nação, que se impõe muito mais pelo ritmo do que pela melodia. Se em Da Lama Ao Caos as alfaias soavam abafadas, em Afrociberdelia elas ecoam fortes e ditam o andamento das músicas.
A banda também conseguiu trabalhar melhor a grande variedade de ingredientes presentes em suas composições e pôde explorar ao máximo seu lado experimental e as novas tecnologias sonoras – a despeito de todas as intromissões e empecilhos colocados pela gravadora (a Sony). O resultado é uma fusão ousada entre passado e presente, entre a tradição regional e influências de outros cantos do mundo (os metais do jazz, o peso do rock, os samplers e efeitos da música eletrônica). “Maracatu psicodélico, capoeira da pesada, bumba meu rádio, berimbau elétrico, frevo, samba e cores”. Ninguém melhor do que o próprio Chico Science para falar sobre essa mistura.
Aliás, ninguém melhor do Chico Science para falar sobre qualquer coisa. Esse sabia das coisas. Assim como o som de sua banda, Science estava ligado a tudo; idéias antigas que nunca envelhecem (ou que podem ser recicladas) e as novidades de seu próprio tempo. Já naquela época era entusiasta do que chamava a “grande biblioteca do cyberspace” – como uma concretização da Enciclopédia Galáctica, a compilação de todo o conhecimento existente, sonhada por Isaac Asimov e Douglas Adams e citada no encarte do disco por Bráulio Tavares, escrito paraibano. No mesmo texto, Bráulio discorre sobre a teoria afrociberdélica (que nomeia a obra), segundo a qual “a humanidade pode ser comparada a uma árvore cujas raízes são os códigos do DNA humano (que tiveram origem na África), cujos galhos são as ramificações digitais-informáticas-eletrônicas (a cibernética) e cujos frutos provocam estados alterados de consciência (o psicodelismo)”. Doido, não? Ou talvez esses caras sejam apenas muito mais conscientes do que nós. E Chico Science engolia isso tudo, esfomiado, irrequieto. Era a “parabólica enfiada na lama”. Era o abaporu. Depois, transformava tudo em arte. Tudo emaranhado em sua poesia inteligente e instigante; um estímulo ao pensamento.
Boas letras unidas a um ritmo singular e a uma produção competente. Elementos que resultaram em faixas clássicas como Manguetown e a sensacional releitura de Maracatu Atômico, de Jorge Mautner; além de outras não menos inspiradas como Macô (iniciada pela tosse engasgada de Jorge Ben) e a linda Criança de Domingo. E assim temos um dos maiores discos nacionais dos anos 90, gerado num dos movimentos mais interessantes e ricos já organizados em nossa música.
Os mangues de Recife hoje respiram bem, musicalmente prolíficos como devem ser. Mas nada seria assim, se não fosse a arte de Chico Science & Nação Zumbi. E se não fosse o som e as idéias da Afrociberdelia.
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“Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer. Deixar que os olhos vejam os pequenos detalhes lentamente. Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, para lhe servir quando for preciso e nunca lhe causar danos, sejam eles morais, físicos ou psicológicos” (Chico Science)
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No In-Edit passou um documentário sobre isso, chama-se Recife Beat. Não vi, mas fica a dica! :P
E nem comento mais qualidade de texto porque não tem graça. :]