conversa_ Sérgio Dias

Para matar a saudade do Brasil, muito…rock and roll! Uma das principais atrações do Pop Montreal de 2009 foi a banda embrionária do rock brasileiro. Quer dizer, não exatamente a mesma. Os Mutantes não tem mais a rainha Rita Lee, nem o lóki Arnaldo Baptista. Sérgio Dias foi quem apagou a luz dos Mutantes em 1978, já sem os integrantes originais, e é ele quem lidera o grupo hoje, que está em turnê para divulgar o primeiro cd de inéditas em 35 anos. ”O único jeito que eu vejo de uma banda voltar é com um trabalho novo”, ele conta em entrevista ao Untuned.

“A gente só retomou de onde paramos”, explica. E a nova formação continua a fascinar os gringos, que acompanharam o show alucinados pela mistura tropicalista e a descontração que estava no palco. Já o Brasil demorou para mostrar interesse pela façanha de Sérgio Dias. O cd, lançado em setembro nos EUA, apenas agora começa a ser negociado para lançamento aqui, onde sairá em uma versão diferente.

Falei com Sérgio Dias logo após a temporada de show na América do Norte. Ele nos contou como está sendo a turnê com banda, falou sobre a parceria com o Tom Zé e como foi a reunião em 2006 com o Arnaldo Baptista e a Zélia Duncan. Agora em janeiro a banda faz uma rápida passagem pelo Brasil (tocam no dia 2 no Festival Psicodalia, em Santa Catarina) e depois partem para a turnê européia. “A bola de neve já está rolando, agora ele só tende a crescer”.

A gente fez questão absoluta de fazer exatamente como a gente fazia, que é basicamente sentar e compor o que você realmente sente, sem nenhuma influência externa, sem nenhuma concessão.

A gente nunca teve medo, e nunca vamos ter. Se as pessoas vão nos comparar, vão acreditar ou não acreditar, isso a própria música vai fazer o serviço dela.

- LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA -

cinco_ Clipes geniais de Michel Gondry

Antes de levar sua mente brilhante para as películas hollywoodianas, o prestigiado diretor Michel Gondry se dedicou, por longos anos, à construção de um belo currículo no mundo dos videoclipes – assim como outros colegas seus, como Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich), David Fincher (Clube da Luta) e, mais recentemente, Marc Webb (500 Dias com Ela). Em companhia de outros artistas não menos geniais (como Björk, Stones, Beck e Radiohead), Gondry criou algumas pequenas obras-primas, munido de suas imagens coloridas e surrealistas. Separei, aqui, cinco destas obras, parte dos momentos mais inspirados do diretor francês. Aproveitem.

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Oui Oui – Junior et sa Voix D’Or (1988)
A relação do diretor francês com a música vai, na verdade, muito além dos videoclipes. Antes de ir para trás das câmeras, Gondry assumia as baquetas da banda francesa Oui Oui. Mas foram os próprios vídeos da banda que serviram de ponte para Gondry migrar para a direção. Este é seu primeiro trabalho como diretor.

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Björk – Hyperballad (1996)
Uma das parcerias freqüentes de Gondry, tendo já rendido sete vídeos. Parceria que, aliás, não tinha muito como dar errado. Afinal, ninguém melhor do Björk para embarcar nos experimentalismos do francês. O resultado aqui é um dos melhores já obtidos pelo diretor. E se você nunca prestou atenção na letra desta música, faça-o.

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Foo Fighters – Everlong (1997)
O estilo surrealista das imagens de Michel Gondry aqui se une ao humor escrachado típico dos clipes do Foo Fighters. Um clipe perfeito para uma música perfeita. Trivia: Vocês sabiam que “Everlong” é a música favorita de David Letterman e que até Bob Dylan já se encantou com estes versos de Dave Grohl?

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White Stripes – Fell In Love With a Girl (2002)
Com menos de dois minutos, milhares de peças de Lego e uma aula de stop-motion, Gondry construiu (literalmente) o melhor clipe da década segundo o site Pitchfork. É, sem dúvida, sua realização mais notável na área. Depois dessa, seguiram mais três contribuições com o White Stripes.

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Paul McCartney – Dance Tonight (2007)
Utilizando uma técnica de ilusionismo conhecida como Pepper’s Ghost, Gondry faz a casa do ex-Beatles ser invadida por uma trupe de espíritos. Uma das melhores composições recentes de Paul, aliás. Participações especiais da fantasminha Natalie Portman e do próprio Gondry. Tente encontrá-lo.

show_ Leonard Cohen (Nova Iorque – 23/10/09)

Andando por Montreal, uma panfleto com o nome de Leonard Cohen chamou a minha atenção. Um manifesto que exigia o cancelamento da apresentação que o cantor montrealense faria em Israel, evocando o boicote cultural à região que teria cometido crimes contra os direitos humanos. Se a imposição de um boicote é ela mesma um ataque a um dos principais direitos do homem, impedir Leonard Cohen de cantar faz ainda menos sentido.

O show, apesar da polêmica, aconteceu em setembro. A renda daquela apresentação foi para organizações que promovem a paz entre Israel e Palestina. Vi o show da mesma turnê algumas semanas depois, em Nova Iorque. É, Leonard Cohen não precisa de discursos para mostrar que quer a paz. Ele tem a música. E sua música tem poder.

Com uma voz única, voz que carrega toda sua experiência – o Chelsea Hotel e um monastério budista já foram casa para o poeta – nenhuma palavra parece ser gasta, mesmo quando diz coisas triviais. Leonard Cohen é um daqueles artistas que está acima de seu tempo, alguém que poderia tomar café-da-manhã com Bob Dylan. Alguém como Tom Waits, mas, no lugar da fascinante feiúra deste, um lirismo inesgotável.

E neste show, divulgando o álbum Live in London, Cohen vem acompanhado de uma banda que responde à beleza de sua poesia. O som ganha um ar etéreo com as três vozes femininas no canto do palco – entre elas, Sharon Robinson, co-autora de alguma composições como “Everybody knows” e “Boogie Street”, na qual ela assume a voz principal. “Who by the fire”, por sua vez, ganha uma introdução arrepiadora com o alaúde de Javier Mas, que confere um colorido espanhol ao show, algo meio expressionista.

O setlist, e mesmo as falas entre as música, é basicamente o mesmo do cd, fora alguns ótimos acréscimos, como “Chelsea Hotel #2″. São três horas de show, e os 75 anos não parecem pesar para o cantor – ele até dá uns pulinhos quando volta para o segundo bis. Aplaudido de pé inúmeras vezes durante a noite, Leonard Cohen torna o Madison Square Garden pequeno. E enche a casa não só de música, mas de uma magia inexplicável, transformadora. Bem, todo mundo deveria assistir a um show dele algum dia.

do forno_ Them Crooked Vultures // Them Crooked Vultures

Um comandou as baquetas no disco mais importante dos anos 90. Outro é líder de uma das grandes bandas deste início de século. Ambos estão entre os artistas mais talentosos, versáteis e prestigiados da atualidade. Junta-se a eles o ex-baixista da maior banda de rock dos anos 70. E os três juntos resolvem fazer música. Assumindo ou não o rótulo de “supergrupo”, a verdade é que este encontro entre Dave Grohl (Nirvana, Foo Fighters), Josh Homme (Queens of the Stone Age) e John Paul Jones (Led Zeppelin) é um dos pontos altos desta década musical e vem dar uma esquentada num ano pra lá de morno no mundo rock. Restava saber, então, se este primeiro disco do Them Crooked Vultures (algo como “urubus desonestos”) conseguiria corresponder a todas as expectativas criadas em torno de seu lançamento.

Na primeira faixa, “No One Loves Me & Neither Do I”, já é possível sentir todo o clima que acompanha praticamente todo o disco, até os últimos acordes. Muito peso e distorção nas guitarras, muitos riffs conduzindo as melodias, letras carregadas de testosterona e sarcasmo. Em poucos trechos, a fórmula se alterna, como na nebulosa “Interlude With Ludes”, que mais parece saída de um disco do Tom Waits. Os melhores momentos vêm com a seqüência “New Fang” e “Dead End Friends”, onde encontramos a perfeita combinação entre a crueza do hard rock clássico e a pegada mais melódica do rock alternativo atual. Em outras faixas, como em “Spinning in Daffodils”, esse equilíbrio é deixado de lado em favorecimento de um som mais agressivo, mas que acaba tornando a “barulheira” um tanto despropositada e desvaloriza os vocais de Josh Homme.

No entanto, mesmo quando não é sua voz que mais aparece nas músicas, é a guitarra de Homme que faz o papel principal em 80% do disco. Mais ou menos assim: Dave Grohl e John Paul Jones comandam a cozinha e o líder do QOTSA serve o prato. Um prato com aquele gostinho de deserto californiano, muito mais do que de pub londrino. Portanto, aos fãs de Led Zeppelin, é válido o aviso de que, neste disco do Them Crooked Vultures, não reconhecemos a ex-banda de Jones em muito momentos, que não na levada de “Scumbag Blues” ou nos dez segundos iniciais de “Elephants” (onde, em compensação, é quase possível imaginar Jimmy Page entoando o riff da guitarra). À falta dessa influência mais óbvia do gênio criativo de Grohl e Jones pode ser creditada uma das poucas falhas incômodas dessa estréia do grupo. Sorte deles que o gênio de Homme também não é pequeno.

Além do mais, o simples fato deste encontro ter se concretizado já é um baita presente para o público. Afinal, grupos de rock haviam virado lenda há uns 30 anos – pelo menos, segundo a noção eternizada por Led Zeppelin e The Who, nos anos 60 e 70, onde um grande grupo era formado, antes de mais nada, por magníficos instrumentistas. O Them Crooked Vultures traz de volta, se não em seu som, ao menos em sua formação gabaritada, um pouco desse espírito saudosista, que valoriza mais um palco cheio de boas performances, do que um cheio de roupas bonitas e efeitos especiais.

Se Grohl, Homme e Jones ainda não mostraram todo o estrago que são capazes de fazer como um trio, este primeiro disco apresenta o Them Crooked Vultures, ao menos, como uma cartada promissora, de onde ainda podemos esperar algumas boas doses de decência musical. Pois se o rock, de fato, está morto, esses três “urubus” dão aqui um bom exemplo de como tirar proveito de sua carne podre.

artista: Them Crooked Vultures
álbum: Them Crooked Vultures
lançamento: novembro de 2009

Nota: 7,5

show_ Yael Naim (Sesc Pinheiros – 13/11/09)

Mais um ótimo show que se soma ao positivíssimo saldo deste Ano da França no Brasil. A atração da vez foi a cantora franco-israelita Yael Naim, nome que começou a destacar na gringa após ter uma de suas canções, “New Soul”, como trilha publicitária do MacBook Air (aquele notebook superfino da Apple). A passagem de Yael por São Paulo foi a última escala da turnê de seu auto-intitulado disco, lançado em 2007. Um disco agradável, mas que não chega aos pés da apresentação ao vivo da cantora. No palco do Sesc Pinheiros, Yael conseguiu transformar suas canções mais modestas em números sublimes, dignos da entusiasmada ovação do público (um numeroso público, aliás).

Dois fatores são os principais responsáveis por tornar o show tão atraente. O primeiro é a liberdade que Yael encontra ali para improvisar e abusar da força e da versatilidade de sua voz, que no álbum pode parecer apenas afinada como tantas outras. O segundo ponto é a atuação impecável de sua banda, formada pelos músicos Xavier Tribolet (teclados), Laurent David (baixo) e David Donatien (percussão, e grande colaborador da carreira de Yael), que, ao vivo, dão um novo fôlego aos arranjos de cada canção. O resultado disso tudo é uma apresentação que se mantém alta do início ao fim, sem esfriar em instante algum.

Some-se ainda a essa conta, o infindável carisma de Yael, que conversa com o público durante todo o show, fazendo brincadeiras, incentivando a interação de todos e contando muitas histórias, sempre bem humorada – e, por vezes, debochada. “Esta próxima música é de uma grande amiga minha”, diz Yael, antes de tocar seu cabaret cover de “Toxic”, sucesso de Britney Spears, que nas teclas do piano da francesa ganha uma sensualidade um tanto mais sombria e elegante (e surpreendente até seu último segundo). Já para apresentar a simpática e ensolarada “New Soul”, Yael se detém um instante para explicar a origem da canção, contando como descobriu que essa era sua “primeira vez na Terra”.

Outra coisa que chama atenção na música de Yael são suas composições em hebraico, que integram boa parte de seu disco e que foram escritas após ela se mudar de Israel (onde viveu dos 4 aos 21 anos, com seus pais tunisianos) para Paris. Como a própria Yael conta no show, ela sentia muita saudade de sua casa, de sua família e de seus amigos e, por isso, decidiu escrever canções no idioma judaico (e não é à toa que essas não são as canções mais alegres do disco). No show, “Yashanti” e “7 Baboker” são as que mais se destacam.

Dentre as demais canções em inglês, outros bons momentos vieram com “Far Far”, que ao vivo é ainda mais bonita, a orientalizada “Land From Another Ocean”, e a música do ukelele, “Find Us”, estas duas ausentes no disco (não sei se são lados B ou se estarão no próximo). Já no bis, uma versão alternativa de “New Soul”, antes apresentada ao piano, agora num clima e arranjo mais casuais. Violão, acordeon, as palmas e o coro da platéia, seguindo em calmaria até quase o fim, quando então explodem em uma grande festa. Para encerrar um grande show e uma longa turnê, fazendo a noite soar como meio-dia.


Alguns bootlegs do show:

Far Far


Toxic (Britney Spears cover)


Land From Another Ocean


New Soul


Yashanti